| Depois do dilúvio |
| Inundações, secas e ondas
de calor vêm alertando administradores urbanos a tomar medidas ousadas
para proteger pessoas e propriedades |
| por John A. Carey |
 |
|
|
 |
| Inundações como esta do rio Delaware força cidades a planejar para o clima radical |
 |
Durante um século Dubuque, no estado
americano de Iowa, atraiu trabalhadores. Conforme surgiam, as novas
gerações construíram casas, lojas e ruas que acabaram por cobrir o
córrego Bee Branch. A água borbulhava por tubos subterrâneos fora da
vista e da memória de muitos.
Até que as chuvas vieram. Em 16 de maio de 1999, 14,2 cm de chuva caíram
em 24 horas. Os tubos do riacho e as galerias pluviais transbordaram,
levantando as tampas de bueiro e transformando as ruas em rios furiosos
na altura do peito das pessoas. Centenas de casas e empresas foram
inundadas.
O prefeito Roy Buol se lembra com detalhes da reunião de bairro
realizada algumas semanas depois. “Todos estavam perturbados”, diz ele.
Em 2001, a cidade concebeu um plano-mestre para resolver o problema da
inundação: transformar o riacho submerso novamente em rio aberto com
margens graduadas para dar conta das enchentes. Claro que isso exigiria
derrubar dezenas de casas. “A sugestão não foi bem recebida”, segundo
Deron Muehring, engenheiro civil da cidade. O planejamento foi
interrompido.
Então, em junho de 2002, caíram mais de 15 cm de chuva durante dois
dias, jogando novamente água da tempestade nas casas e edifícios que
tinham acabado de ser reformados. Isso ajudou a romper o impasse
político e uniu os líderes da cidade num plano de US$ 21 milhões para
refazer o bairro que precisou eliminar casas e adicionar um parque
verdejante com um riacho passando por ele, juntamente com duas bacias de
retenção. A decisão não dependeu de palavras sobre a mudança climática
ou da necessidade de salvar o planeta para as gerações futuras. Os
moradores estavam fartos, e líderes locais temiam que o bairro sofresse
um declínio irreversível. A cidade começou comprando 74 propriedades e o
início da construção ocorreu após outra inundação em 2010. Engenheiros
já restauraram cerca de 610 m do córrego Bee Branch. Quando o projeto
estiver concluído em 2013, a cidade poderá até resistir a novos dilúvios
de 25 cm ou mais de julho passado, que provocaram vários milhões de
dólares em prejuízos.
As ações de Dubuque são um microcosmo de uma história maior que se
desdobra em todos os Estados Unidos. As políticas federais de combate às
mudanças climáticas estão paralisadas, e alguns membros do Congresso
acusam os cientistas de inventarem tudo. Mas as cidades, vilarejos,
autoridades de fornecimento de água, agências de transportes e outras
entidades locais não estão interessadas em debater se a mudança
climática é real ou não: estão agindo agora. Como Dubuque, eles já
enfrentam enchentes, secas, ondas de calor, elevação dos mares sem
precedentes e a morte e destruição que esses acontecimentos podem impor.
“Temos de levar a adaptação a sério”, avalia o senador do estado de
Iowa, Rob Hogg.
Aproximadamente 16 estados americanos têm ou estão desenvolvendo planos
de adaptação às alterações climáticas, segundo o Georgetown Climate
Center, em Washington, D.C., que trabalha com os estados. [Informação: a
esposa do autor, Vicki Arroyo, é diretora- executiva do centro.] Embora
ninguém tenha computado os números exatos, centenas de comunidades e
agências vêm reagindo ao clima cada vez mais severo. Os que não estão
trabalham com tapa-olhos, como sempre, segundo a urbanista Mikaela
Engert, que ajudou a desenvolver os planos para Keene, New Hampshire. |
|
John A. Carey é jornalista free-lancer, ex-correspondente-sênior da BusinessWeek, onde cobria ciência, tecnologia,
medicina e meio ambiente. |
|
|
Repostado por Wescley Geo-blog
Nenhum comentário:
Postar um comentário