sábado, 7 de janeiro de 2012

Brasil exporta mais para emergentes do que para ricos

Em 10 anos, participação de países desenvolvidos caiu de 62,5% para 42%, devido à China

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Embarque no Porto de Santos Foto: Andrew Harrer / Agência O Globo
Embarque no Porto de Santos Andrew Harrer / Agência O Globo
BRASÍLIA - Na última década, não só o modelo das exportações brasileiras mudou, como também o perfil de seus compradores. Se em 2000 o país vendia às nações desenvolvidas 62,5% da pauta, esse número caiu para 42,1% no ano passado. Liderados pela China, os países em desenvolvimento agora são os maiores importadores de produtos brasileiros e ficam com nada menos que 57,9% do total, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. No entanto, a alteração não significou apenas a diversificação dos destinos das mercadorias, o que seria bom — sobretudo em um momento em que os países desenvolvidos continuam às voltas com a crise financeira —, mas a perda do seu valor agregado.
Estudo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), ao qual O GLOBO teve acesso, revela que a nova demanda dos países em desenvolvimento, que cresceram a taxas invejáveis, ajudaram a jogar para cima os preços das commodities, o que levou o Brasil a deixar de lado a pauta de manufaturados e se dedicar aos produtos básicos. De 2000 a 2011, cresceram as suas compras de produtos brasileiros em nada menos que 716,5%.

— Foi a década da preguiça, movida pelos altos preços das >ita<commodities, incendiados pela demanda mais forte dos asiáticos, em um período em que o mundo vinha crescendo em ritmo acelerado. Perdemos a oportunidade de atacar os manufaturados — disse o presidente da AEB, José Augusto de Castro.
Só os EUA, que abocanhavam uma fatia de 25% das nossas exportações, ficaram com 10% em 2011. Segundo Castro, os americanos compravam majoritariamente manufaturados do Brasil. O problema, segundo ele, é que os preços das commodities encheram os olhos dos produtores, que se transformaram nas cigarras da década.

— Sem medidas mais drásticas, não nos vejo virando formigas — acrescentou.
Esses preços fizeram as exportações brasileiras bater recorde no ano passado. Por isso, 72% da pauta exportada eram produtos básicos.
Quando comparadas às importações mundiais no estudo da AEB, vê-se que a China, de longe, foi quem mais aumentou as compras pelo mundo. E a sua pauta é basicamente de >ita<commodities. Passou a comprar US$ 1,8 trilhão em 2011 contra US$ 249 bilhões em 2000. Os EUA importaram US$ 2 trilhões, contra US$ 1,2 trilhão, enquanto a Alemanha passou de US$ 497 bilhões para US$ 1,1 trilhão no período.

— A China importou para exportar. Fez o seu dever de casa, como a Índia, que exporta manufaturados — disse Castro.

Ênfase em ‘commodities’ afeta indústrias do país

Entre os Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil exportava em 1980 pouco mais de US$ 20 bilhões para o exterior. Na mesma época, a Rússia vendia ao exterior US$ 76 bilhões. A China vinha em seguida com US$ 18 bilhões e a Índia, na lanterna, com US$ 9 bilhões. No ano passado, pouco mais de três décadas depois, o Brasil exportou US$ 256 bilhões, contra US$ 315 bilhões dos indianos, e nada menos que US$ 1,8 trilhão dos chineses. Os russos aumentaram suas vendas no período para US$ 530 bilhões.
O resultado do novo apetite dos países em desenvolvimento teve impacto direto sobre as receitas de exportações do Brasil pois turbinou não só a quantidade, mas, sobretudo, os preços. As vendas de minério de ferro, vedete da balança em 2011, renderam US$ 41,8 bilhões no ano passado, contra US$ 3 bilhões em 2000. Trata-se de um aumento de 1.394%. Já os preços saltaram no período de US$ 19 para US$ 126.
A dependência cada vez maior da venda de produtos básicos e a perda de competitividade dos manufaturados estão provocando uma desindustrialização na economia brasileira, alerta o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti. Para ele, o Brasil está jogando fora as conquistas obtidas nos anos 80, quando a pauta de exportação do país incluiu produtos de alto valor agregado.
— No fim dos anos 70, saímos daquele perfil de exportadores de café e começamos vender produtos com valor agregado, que geram emprego e riquezas. Isso está se perdendo rapidamente — disse ele, lembrando que, quando se retiram as commodities da contabilidade das exportações, a balança comercial brasileira passa a ter um déficit de US$ 100 bilhões. (Colaborou Martha Beck)

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