segunda-feira, 5 de março de 2012

O sal e a terra

Na depressão de Afar, na África, tribos pastoras e mercadores de sal sobrevivem em uma paisagem surreal de fissuras, falhas e um lago de lava borbulhante

por Virginia Morell Um Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Parecia uma cena produzida por um estúdio de efeitos especiais em Hollywood. Em setembro de 2005, pastores afares do norte da Etiópia viram, estarrecidos, a terra abrir um bocejo e engolir suas cabras e seus camelos. Pedaços de obsidiana irromperam de cavernas e voaram pelos ares, “como enormes pássaros pretos”, disse uma testemunha. Por três dias, uma encrespada nuvem de cinzas obscureceu o sol durante a erupção do maior vulcão da região, o Erta Ale – “Montanha Fumacenta”, na língua afar.
O que desencadeou esses eventos assustadores? Quilômetros abaixo da superfície, um colossal arroto de magma subira por entre duas placas tectônicas. Na superfície, centenas de fissuras abriram-se ao longo de 60 quilômetros de deserto e engoliram os pobres animais. Outros sismos menores abalaram a área nos anos seguintes.

A depressão de Afar, na África, é uma das regiões mais hiperativas do mundo em termos geológicos. Para quem a sobrevoa de avião, ou em um paraglider motorizado, como fez inúmeras vezes o fotógrafo George Steinmetz, ela pode parecer imóvel como o gelo no Ártico. Mas a fachada atemporal de Afar esconde sua real natureza. Sob a superfície, a casca rochosa da Terra está se rasgando, e câmaras subterrâneas de magma alimentam 12 vulcões ativos, além de gêiseres, caldeiras borbulhantes e um revolto lago de lava.
Os terremotos de 2005 e os sacolejos subsequentes são os mais recentes de uma longa série de abalos sísmicos iniciados há 30 milhões de anos, quando o magma subiu pela crosta terrestre e começou a separar a península Arábica da África, criando o mar Vermelho e o golfo de Áden. Depois de aflorar, o magma resfria, torna-se mais denso e afunda. Algumas partes de Afar agora se encontram mais de 150 metros abaixo do nível do mar.

Por estar tão baixa, a depressão de Afar foi muitas vezes inundada pelo mar Vermelho; a última vez em que isso ocorreu foi há 30 mil anos. Depois de cada incursão, a água marinha evapora e deixa grossas camadas de sal. Esse “ouro branco” tem sido uma importante fonte de renda para os afares, que permanecem leais à sua terra de extremos, apesar de temperaturas que no verão podem superar os 49°C.
Cientistas enfrentam o deserto por outra razão. Afar é um dos poucos lugares da Terra em que uma dorsal submarina – uma saliente linha de junção por onde o magma verte e forma o novo assoalho oceânico – emerge no solo. Para os estudiosos da Terra, é uma rara chance de investigar processos geológicos que, via de regra, acontecem muito abaixo da superfície do oceano.

Com tempo suficiente – no mínimo vários milhões de anos –, esses processos geológicos produzirão mudanças drásticas na geografia da África: a depressão de Afar e todo o Grande Vale Rift serão o berço de um mar que ligará o Vermelho ao oceano Índico e separará o Chifre da África do continente.

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